Autodefinição e Apoio em Tempos de Clandestinidade: Uma Crítica Discursiva sobre Justiça Reprodutiva em Narrativas de Mulheres Negras
Latin America
Feminism
Race
To access full paper downloads, participants are encouraged to install the official Event App, available on the App Store.
Abstract
Este trabalho apresenta os principais resultados de uma análise crítica discursiva a partir de narrativas de três mulheres negras a respeito de suas experiências de aborto clandestino e nas representações das redes de apoio acionadas em seus itinerários, visando contribuir com os debates sobre descriminalização do aborto na América Latina e Caribe por meio de uma abordagem interseccional e decolonial. A metodologia adota os Estudos Críticos do Discurso (ECD) (Vieira 2020; Resende 2017, 2020; Pardo, 2010; Pardo Abril, 2005, 2007; MAGALHÃES, 2017), ancorados em epistemologias negras que desafiam o cânone ocidental. O arcabouço teórico articula os Feminismos Negros (COLLINS, 2016; VERGÉS, [1952] 2021; GONZALES, [1980] 2018; Carneiro, 2005), o Oxunismo/Matripotência (OYĚWÙMÍ, 1997; 2016; 2020; NZEGWU, 2011) e a Justiça Reprodutiva (GOES, 2019; ROSS, 2007, 2011) à concepção de libertação a partir de atitudes de enfrentamento à colonialidade, conforme precarizado por Frantz Fanon (FANON, 1952; 1961; MALDONADO-TORRES, 2020), realizando uma crítica explanatória a partir da análise de pequenas histórias (GEORGAKOPOLOU, 2015). O estudo entende essas mulheres como atoras sociais engajadas em atitudes decoloniais. A análise gira em torno de três movimentos retóricos centrais: (i)Autodefinição/Autoavaliação: Revelando a negociação das imagens de controle e o custo da culpa internalizada, contrastando com a possibilidade de agência ao falar e decidir seus próprios destinos reprodutivos; (ii) Clandestinidade: Demonstrando que a criminalização intensifica riscos, violências institucionais e a ausência de amparo, evidenciando as opressões que atingem corpos de maneiras desiguais; e (iii)Redes de Apoio: O suporte afetivo, o acolhimento e o respeito à decisão mostraram-se mais cruciais para o bem-viver do que apenas a segurança material. O apoio incondicional entre mulheres e sua pertença comunitária respeitosa foi um fator determinante para a qualidade da experiência. Os resultados reforçam o aborto clandestino como um grave problema de saúde pública e demonstram que a luta pela autonomia reprodutiva não pode ser dissociada do enfrentamento ao racismo estrutural e da garantia do direito ao bem-viver para mulheres negras.