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Entre o ciborgue e o corpo-território: neoliberalismo, colonialidade e gênero na América Latina

Gender
Latin America
Feminism
Race
Liberalism
Giovanna Nutti
Federal University of ABC
Giovanna Nutti
Federal University of ABC

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Abstract

Os debates internacionais sobre gênero e política continuam fortemente ancorados em epistemologias produzidas no Norte global, que frequentemente universalizam experiências particulares. A figura do ciborgue de Donna Haraway ilustra esse movimento: uma imagem potente em contextos tecnocientíficos do Norte, mas que se apoia em pressupostos de branquitude, mobilidade e integração tecnológica que pouco dialogam com as condições materiais das mulheres latino-americanas. A partir dessa tensão, este trabalho propõe uma crítica situada ao imaginário ciborgue, argumentando que sua promessa de superação das fronteiras identitárias ignora a persistência histórica da colonialidade, da racialização e da exploração laboral na região. No entanto, a insuficiência desse imaginário torna-se mais evidente quando analisamos as dinâmicas materiais de poder que moldam o gênero na América Latina, especialmente sob o neoliberalismo. Com base nas contribuições de Rita Segato e Julieta Paredes, argumento que o neoliberalismo contemporâneo aprofunda o que Segato denomina “patriarcado de alta exploração”, no qual o corpo, o tempo e a energia vital das mulheres — sobretudo racializadas e de classes populares — tornam-se recursos intensificados de acumulação. A prevalência de regimes laborais como a escala 6x1, amplamente difundida em setores industriais e de serviços, evidencia a captura neoliberal do tempo e da reprodução social. Além de agravarem desigualdades salariais de gênero, essas formas de exploração atualizam hierarquias coloniais que estruturam a região desde o período pós-conquista. Como alternativa epistemológica e política, recorro ao feminismo comunitário de Julieta Paredes, que formula a noção de “entronque patriarcal” para descrever a articulação entre o patriarcado colonial e o patriarcado ancestral. Seu conceito de corpo-território reposiciona o corpo feminino não como plataforma tecnocientífica — à maneira do ciborgue —, mas como território de vida, memória e comunidade. Essa perspectiva permite repensar categorias centrais da política e da economia, recolocando o cuidado, a reciprocidade e a vida coletiva como fundamentos da resistência ao neoliberalismo. Ao articular crítica epistemológica e análise das condições materiais de exploração, o trabalho busca demonstrar como epistemologias feministas latino-americanas não apenas desestabilizam categorias universais produzidas no Norte, mas também oferecem ferramentas conceituais para reconstruir o debate sobre gênero e política a partir do Sul global.