Reação antigênero como projeto político: uma análise comparada das extremas direitas no Brasil e na Argentina (2019–2027)
Democracy
Gender
Government
Latin America
Welfare State
Comparative Perspective
Policy Change
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Abstract
Com a ampliação dos regimes democráticos na América Latina e do contexto internacional favorável a agenda de gênero, políticas como as de direitos sexuais e reprodutivos e de combate à violência contra as mulheres encontraram oportunidades de institucionalização por meio de legislações e criação de Mecanismos Institucionais de Políticas (Guzmán, 2006; Guzmán; Montaño, 2012; Paradis, 2013; Biroli, 2019). Ao observarmos a trajetória recente de países como Brasil e Argentina, conseguimos identificar como as instituições democráticas — Executivo, Legislativo, Judiciário e espaços participativos — têm sido arenas decisórias de disputa em torno das políticas de igualdade de gênero. O desmonte de conselhos e ministérios de políticas para as mulheres, cortes orçamentários, ataques as mulheres nas redes sociais e censuras às discussões de gênero e sexualidade nas escolas, exemplificam como a reação antigênero se articula à crise democrática. O gênero emerge como uma lente essencial para compreender esses processos, tendo em vista que os direitos das mulheres e da população LGBTQIA+ se tornaram alvo central dos ataques autoritários, mobilizando eleitoralmente candidatos Anti-establishment. Este resumo propõe, portanto, analisar a relação entre gênero, democracia e crise da democracia a partir de uma perspectiva institucional e crítica, entendendo o gênero como campo estratégico para identificar os mecanismos de erosão democrática. Ao articularmos gênero, democracia e crise da democracia, estamos abordando de forma teórica e política, três debates centrais da ciência política contemporânea. Para fins metodológicos, partiremos de uma abordagem qualitativa de caráter comparado entre Brasil e Argentina, correspondente aos governos de extrema direita de Jair Bolsonaro e Javier Milei (2019-2027). Para a coleta de dados, utilizaremos o método de análise de conteúdo. A escolha por uma análise comparada é justificável pela possibilidade de compreender o fenômeno a partir de suas semelhanças, mas, sobretudo, a partir de suas especificidades. Bolognesi (2022) defende que a análise da política comparada busca estabelecer relações, generalizações e causas, mesmo que não diretas, entre variáveis explicativas e explicadas. Assim, o presente trabalho busca aprofundar teoricamente a função das políticas antigênero (Campana, 2021; Corrêa; Kalil, 2021), a partir de suas semelhanças e especificidades no percurso político das lideranças autoritárias.